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Amadora - tradição cultural e iniciativa cívica

Amadora - tradição cultural e iniciativa cívica

por Fernando Piteira Santos:

Descobrir, no tecido urbano desta Amadora - Cidade de Abril como gosto de lho ouvir chamar - traços da aldeia onde nasci, não é fácil. Aldeia era o seu nome de registo quando ganhou Categoria de freguesia, mas não lhe exageremos a rusticidade. Amadora, distinguindo-se das duas Porcalhotas, da Faleceria e da Damaia, foi logo na sua origem um produto híbrido: uma ocupação de citadinos retalhando um espaço rural.

Havia os casais: o Casal de S. José, o Casal da Barroca, o Casal do Burel, o Casal de Vila Chã, o Casal do Gouveia, mas dos "cancelas" da Rua Elias Garcia ao Alto da Venteira, e na MinMina, as vivendas com jardim e quintalório, de um piso ou dois predominavam, Uma população burguesa instalava-se gente das profissões liberais., funcionários civis e militares, empregados bancários, comerciantes, industriais, proprietários, um poeta-editor, um pintor. Esqueço forçosamente homens e profissões, Seria mais rico o matiz, mas eram estas ao tónicas dominantes.

Suprindo a indiferença dos públicos poderes e ultrapassa na medida do possível, as fantasiosas vinculações administrativas, eclesiásticas, escolares e judiciais, a gente de Amadora revelou, nesses anos que separam o Início do século da proclamação da República e da entrada de Portugal na Guerra (a de 1914-1918), capacidade relacional, coesão, iniciativa. Exemplo feliz, o distante, dessa capacidade de criar um meio social e de estabelecer relações entre os moradores e de lhes propor objectivos comuns, foi a constituição da "Liga dos Melhoramentos da Amadora".

Em 1914, o poeta Delfim Guimarães fazia justiça ao "caminho de ferro" como factor de fixação do núcleo populacional da Amadora "florescente vilazinha como lhe chamam, cheios de bem-querer, os jornalistas da capital". Descrevia nos termos seguintes o desenvolvimento local o referia já que a "aldeia" era um dormitório citadino. São suas as seguintes palavras: "A pouco e pouco, devido às facilidades de comunicação resultantes do linha ferro de Lisboa a Sintra, o logarejo foi alargando a sã área, e aqui vieram fixar-se algumas dezenas de familias atraídas pelas excepcionais condições de salubridade da região e que podiam seguir na capital a vida operosa de todos os dias -Seta população tinha necessidade de escolas. A primeira escola de ensino particular foi aberta no ano de 1902. Em Outubro de 1910 - conta-nos Delfim Guimarães – "um grupo de indivíduos, a cujo número tenho a honra de pertencer" constituiu "uma sociedade de Instruçãoo a qual se propunha criar o manter a "Escola Alexandre Herculano". Coexistiram, com suas vocações dif erentes, A Escola de D. Maria Pinto (criada em 1902) a a oscola cuja direcção foi confiada a D. Alice Leite, o Externato Alexandre Herculano (criada oro 1910) e inicialmente dedicado ao sexo feminino.

A par do ensino particular que compreendia$ também a escola de um Centro republicano, existia o ensino oficial. Este mal instalado. Foi a "Liga de Melhoramentos de Amador&" que amos, novamente Delfim Guimarães – "chamou a aí essa cruzada carinhosa, e, ao cabo de uma luto de 4 anos, conseguiu ver solenemente Inauguradas pelo Chefe de Botado, o Sr. Dr. Manualde Arriaga, as novas instalações das escolas oficiais..."

Em 1914, Amadora era um aglomerado de cerca de 3.500 habitantes A uma povoação "pequenina e modesta" que era "não obstante. a terra portuguesa que maior número de escolas mantem em relação à sua reduzida população". O que já era um título de orgulho. Mas, o poeta Delfim Guimarães, inscrevia nos pergaminhos da "aldeia-dormitório" um outro motivo de prestígio: "a terra portuguesa onde a Iniciativa par ticular tem substituído com vantagem a acção dos poderes públicos."
Diferentes saio os tempos. Amadora cresceu. Nas últimas décadas, cresceu vertiginosamente, caoticamente. O espaço rural foi retalhado primeiro, devorado depois pelos monstros sem estilos sem graça, incaracterísticos, hostis à vivência colectiva.

A expansão tentacular revelou-se adversa à convivência cívica. Regressar ao passado de um núcleo populacional coeso, em muitas questões do viver colectivos solidário, é, sonho de romântico utopismo. Mas talvez, valha a pena - tomando como referência se actividades culturais que liguem a tradição dos pioneiros e a intervenção actual dos cidadãos activos - recriar esse espírito de iniciativa que substitua, até onde for possível, os poderes públicos centrais e constitua sobre eles, contra eles, uma forma válida de pressão e, do mesmo passos sem esquecer aqueles que na Amadora dormem, reunir, unir, os que na Amadora vivem. A Cidade tende para ser um centro de vida urbana e um polo de actividades. Sede municipalsó: mas ao só: Cidade. Quanto na palavra caiba, e que bastante.

Novamente - federando energias, organizações, activistas cívicos, animadores culturais, homens e mulheres de boa vontade uma "Liga dos Melhoramentos"? Uma "Liga dos Amigos de Amadora - Cidade de Abril"?

Nem sequer é uma proposta. É uma lembrança.

assinat fps

17 de Outubro de 1987